Filho de Joaquina Dantas Gurgel, parteira conhecida como mãe Quininha, e do professor Dantas Gurgel, Walfredo ganhou esse nome, por sugestão do padre que o batizou, em homenagem ao monsenhor Walfredo Leal, então governador da Paraíba. Talvez, como prenúncio de duas vertentes que seriam seguidas com paixão por ele: o sacerdócio e a política. Segundo Bianor Medeiros, biógrafo de monsenhor Walfredo e autor do livro Monsenhor Walfredo Gurgel – Um Símbolo, ele manifestou o desejo de ser padre com apenas 12 anos. O sonho se realizou na juventude, em Roma. Já nesse período, ele cultivava o vício que o tornava ‘‘moderno’’ aos olhos da igreja e dos paroquianos e que, mais tarde, foi responsável pelo surgimento de um câncer no pulmão que o ceifou a vida: o cigarro.
Quando regressa ao estado, passa pouco mais de um ano como reitor do Seminário São Pedro, do qual havia sido aluno. Monsenhor Walfredo segue então para Acari, onde chama atenção pela sua coragem de enfrentar os problemas políticos, pelo incentivo às práticas esportivas e por mobilizar a população sobre a ameaça comunista. Dois anos depois, é transferido para a paróquia de Santana, em Caicó. Passa a integrar a luta pela criação de uma diocese no município. Ao lado de dom Delgado e de lideranças locais, Monsenhor Walfredo Gurgel luta em prol da construção do Ginásio Diocesano de Caicó – um marco para a educação da região. Dele foi o primeiro diretor. Mas, segundo Bianor Medeiros, foi administrador da obra, era professor de várias matérias, contador, e ainda tinha tempo para treinar os times de futebol – uma paixão – de vôlei e assistir aos ensaios da banda de música que organizara.
Política
De acordo com um trecho do fascículo da coleção Os Seridoenses – Walfredo Gurgel, editado pelo Diário de Natal, esse comportamento inquieto, preocupado em promover o bem comum no exercício apaixonado de sua atividade pastoral e pedagógica, entende facilmente que ele não ficaria imune ao assédio dos partidos que começavam a se formar com a redemocratização em 1945. Ele se filiou ao PSD, partido pelo qual se elegeu deputado federal constituinte em 1946. ‘‘A política era o traço que faltava para completar-lhe o perfil. Porque se já lograra reconhecimento nos âmbitos religioso e educacional, seria exatamente nela que consquistaria reconhecimento maior como administrador honesto, equidistante das paixões partidárias’’, relata trecho do fascículo.
Em 1960, monsenhor Walfredo é convidado para ser candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Aluízio Alves. Em 1962, ele é eleito senador. Em 1965, na sucessão de Aluízio, seu nome surge como único capaz de enfrentar a candidatura de Dinarte Mariz, após a recusa do prefeito mossoroense Raimundo Soares, na disputa pelo governo. Vinte anos depois de ingressar na vida pública, monsenhor Walfredo Gurgel é eleito para o mais importante cargo do estado, tendo como vice-governador Clóvis Motta. Ele foi o último governador eleito pelo voto direto, nesse período. No ano em que assumiu, o governo militar instituiu o AI-5, para estabelecer eleições indiretas, para evitar as lideranças populares e a movimentação de massas.
O governo do monsenhor Walfredo Gurgel foi marcado por uma política de austeridade, gestos discretos, convivência com os contrários e máximo controle de gastos. Apesar ter governado num momento difícil da economia nacional, sua administração fez, dentre outras coisas, a eletrificação rural para 59 cidades e seis vilas, pavimentação de 160 quilômetros de estrada – o que representou o dobro do que havia sido feito até então, 25 pontes, incluindo a primeira ponte rodoviária sobre o rio Potengi, ampliou os serviços de telecomunicações, incentivou os investimentos privados, o fortalecimento do setor agropecuário, foi responsável pela construção de 375 salas de aula, do primeiro hospital de pronto socorro de Natal, de casas populares e da Biblioteca Câmara Cascudo. Sete meses após deixar o governo, morre o monsenhor Walfredo Gurgel, em 4 de novembro de 1971.
‘‘Como governador, o monsenhor Walfredo Gurgel legou à posteridade uma obra difícil de ser igualada em cinco anos de mandato. Pode ser que no futuro essas obras físicas deixem de existir. Pode ser que o desenvolvimento tecnológico possa torná-las obsoletas e imprestáveis. Mas, como o quarto do poeta na casa a ser demolida, elas vão ficar na eternidade, intactas, suspensas no ar’’, disse seu sobrinho e secretário de Finanças de seu governo, José Daniel Diniz.
Fonte:Flávia Urbano-DN/by Miquéas Capuxú.